"Jogo da Velha 49: Um tema anti-temático"
por uma literatura torta
Recebi a seguinte pergunta do André Salomão:
Bom dia, Noemi
Primeiro, gostaria de parabenizá-la pelos artigos incríveis da sua newsletter. Você manda muito bem mesmo.
Segundo, eis a maldita QUESTÃO:
Não estou conseguindo escolher o tema do meu próximo romance.
Estou entre escolher um GRANDE TEMA e elaborá-lo ou simplesmente utilizar a mágica lupa da literatura e observar a matéria artística da vida de gente como a gente.
Ou ambos. Sei que os dois são métodos válidos.
Não sei se estou meio enfeitiçado pelo mercado editorial e a ideia de viver de escrever ficção, querendo me decidir por um tema com maior probabilidade de ser um hit. Não sei mesmo.
Enfim, sobre o que raios eu deveria estar escrevendo e por que isso parece uma escolha tão difícil?
P.S.: E se eu escrevesse um romance sobre o Carreta Furacão?
Querido André,
Capaz que você tenha vindo fazer essa pergunta para a pessoa errada. Justo eu que sou quem mais reclama que a literatura tem se tornado cada vez mais...
temática.
E literatura temática, na minha opinião, é uma contradição em termos. Temático é currículo de faculdade, parque aquático, festa de aniversário de criança. Etimologicamente, “tema” é proposição ou tese. Um tema é tema de tese. Mas literatura é tudo, menos tese. A literatura é a língua viva, dinâmica, concreta e acontecente. Coisas que são e não são, tudo o que poderia ou não poderia ser, personagens que a gente nunca se cansa de conhecer cada vez mais. Bons e maus, certos e errados, cômicos e trágicos, a gente vive o que eles vivem na nossa pele.
Zero tese. Zero tema.
Qual é o tema de Memórias Póstumas de Brás Cubas? De Metamorfose? De Quarto de Despejo? Você acha que algum desses autores sentou um belo dia e pensou: vou escrever sobre a hipocrisia social criando um personagem que sonha com um emplastro universal ou vou escrever sobre a burocracia do império austro húngaro através de um corretor que se transforma num inseto monstruoso?
Tenho certeza que não. Caso contrário, não teríamos essas obras-primas.
Machado de Assis inventou Brás Cubas, o emplastro, as amantes e o delírio dos delírios, à altura de qualquer Dostoievski. Ele inventou a história e, principalmente, inventou uma forma de fazer essa história falar. De dar vida ao Brás Cubas através de uma narração póstuma, mistura de metalinguagem, ironia, auto-ironia, erudição e poesia.
Um tema, como dizia o Bandeira, é qualquer coisa. “A poesia está no amor como nos chinelos”, o que já é em si mesmo um poema.
Escolha qualquer coisa que te interesse: os piados dos pintassilgos africanos, o último pé na bunda, a guerra das duas coreias ou o caderno de receitas da sua mãe. Tanto faz.
Sempre acho bacana, para ter ideias, pesquisar assuntos dos quais a gente não entende nada. Mergulhar naquelas incógnitas e andar por elas como se fossem “florestas de símbolos”, que deixam sair sinais que vamos decifrando, como no poema do Baudelaire.
É todo um mundo novo que se abre e surgem ideias em que nunca pensamos.
Isso, na verdade, só serve para mostrar que o que interessa é ir desbravando os caminhos que a linguagem, as frases, os ritmos, os personagens e suas ações vão abrindo na nossa frente. Como se fôssemos não somente seus condutores, mas também seus passageiros ou motorneiros, no máximo.
A gente vai pesquisando, revisando, reescrevendo, acrescentando informações. A gente para, se revolta, apaga e recomeça.
Mas o trabalho mesmo é delas duas: história e linguagem.
São elas que têm que se entender.
O tema a gente descobre depois.
Alguém, afinal, está interessado no tema de Memórias Póstumas?
Sim, claro. Os professores e os estudiosos, o que é excelente para nós, leitores comuns. Mas essa interpretação temática é a posteriori.
André, não tenho nada contra você partir de um tema. Pode muito bem dar certo.
Mas, como te disse antes, não sou a melhor pessoa para falar disso. Sorry.
Ah, e o que é Carreta Furacão?
Eu gosto de ficar olhando uma menininha de menos de dois anos, no instagram, que come tudo de tudo. Fico encantada porque ela praticamente só reproduz as últimas sílabas das palavras, nunca as primeiras: ovinho é vinho; cabou é bô; queijo é ejo; panquequinha é quequinha; caiu é iu e assim por diante. É como reinventar a língua por suas sílabas finais e criar uma conversa toda dedutiva, em que o pai precisa adivinhar o que ela está dizendo. Mas a meia-palavra que eu mais adoro é “esa”, no lugar de “surpresa”. Quando ela come tudinho do prato – e ela sempre come, capaz de comer seis panquequinhas num café da manhã – ela tem direito a uma “pesa”. O que é a “pesa”? Pensam que é um brinquedinho, contar uma história, algo assim? Na, na, ni, na, não. A “pesa” é “ate”. Tomate cortadinho.
Fico pensando com o meu zíper: o que significa, para essa menininha, essa palavra “esa”, ou “surpresa”?
Significa “ate”, ou “tomate”.
Qual o sinônimo de surpresa? Tomate.
É lindo.
Surpresa, em seu sentido abstrato de acontecimento inesperado, “ficamos surpresos com uma coisa pela qual não esperávamos”, é um conceito muito genérico e formal. Imagino que uma criança só venha a compreender esse sentido abstrato bem mais tarde, depois dos cinco anos, por aí.
Por enquanto, surpresa é, só e tão somente, a palavra surpresa. Ou, ainda menos, suas sílabas finais. Hoje pode ser “ate”. Amanhã, a “pesa” se transforma magicamente e vira “ejo”. Depois de amanhã “oca”, “io” ou “eta”.
A poesia agarra as palavras aí. Nesse estado. Era disso que o João Cabral falava quando dizia querer “não a flor dos campos, mas a palavra flor”. Era nesse estado inaugural da palavra, quando ela nasce igual à batatinha. Nasce e espalha a rama pelo chão ou se esparrama pelo chão, tanto faz.
Quem fala um poema, fala antes suas palavras.
Ser como o rio que deflui
Enlace de noite raiz e minério
Forjar: domar o ferro à força.
Como no conto “O Espelho”, do Guimarães Rosa, em que o narrador finalmente recupera sua imagem no espelho, mas só aos poucos, apenas umas poucas formas nascentes, é aí que a poesia surpreende as palavras. Te peguei, menina, antes que você faça parte de algum manual, alguma ideologia, alguma abstração ou conceito, antes que você queira dizer alguma coisa e se encha de fantasias e máscaras, te peguei aqui nuazinha, ainda sem querer dizer nada. Ou melhor, nesse teu mundo, “pesa” quer dizer “ate” ou “ejo”. Depende do dia.
Imagino um questionário para um bebê:
Jornalista: bebê, o que quer dizer saudade?
Bebê: “ade” “dudu”.
Jornalista: e alegria, bebê?
Bebê: humm....”gria” “eta”.
Jornalista: mas que bebezinho inteligente, parabéns! Só para terminar, bebezinha, o que é uma coisa de adulto?
Bebê: “afé”.
Ou uma história contada de uma forma codificada, em que (quase) todas as palavras estão ao contrário:
É nenhuma vez outra menino pouco feia. Um anjo a amava e sentia admiração por sua feiúra. Ele se escutava na parede e respondia: parede, parede sua, não existe ninguém mais feio do que ela? E a parede perguntava: não existe, anjo, não existe. A Preta de orvalho é menos feia!
Aliás, esse era um tipo de exercício feito por Guimarães Rosa. Torcer as palavras para que elas digam algo diferente do que estão acostumadas a dizer.
Ele pega, por exemplo, a expressão “águas tranquilas”, caquética de tão catacrética e faz ela dizer “quilas águas trans”. Que que acontece?
A palavra renasce.
Oi turma! Cheguei!
Tem dúvidas sobre personagem, tempo, espaço, narrador, conflito, linguagem, como começar, como terminar, como continuar, qualquer coisa?
Mande aqui sua pergunta para o Correio Literário ou pelo email contato@noemijaffe.com.br
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Um romance sobre Carreta furacão nos faria um bem danado. Espero que o escritor siga esse insight e aplique seus conselhos.
Noemi, adoro como você nos ensina sobre escrita criativa. Obrigada!
Achei a segunda parte do seu texto profundamente lacaniana. A poesia aparece na palavra assim como o insconsciente: quando ela é uma novidade, um susto.